O efeito manada na história: de Asch e Milgram à Alemanha de 1933, ao Brasil de 1964 e a Ruanda. O que a ciência mediu e o que ela ensina.
Por Ronaldo Silva · 17 de outubro de 2026 · 15 min de leitura
Uma pergunta não me sai da cabeça: como alguém vem a público, fala coisas horríveis, contra a liberdade e até contra a vida de quem escuta, e mesmo assim é admirado? Fui atrás de quem estudou isso a sério. A resposta é antiga, tem nome e tem dados. Aqui está o que encontrei, com a fonte de cada coisa.
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O que a ciência mediu
O experimento das linhas (Solomon Asch, 1951). Uma pessoa sentava numa sala com outras sete e tinha que dizer qual de três linhas era do mesmo tamanho de uma linha modelo. A resposta era óbvia. Só que as outras sete eram atores, combinados para dar a resposta errada. Resultado: cerca de 3 em cada 4 participantes deram a resposta errada do grupo pelo menos uma vez. Sozinhos, quase ninguém errava.1
O experimento do choque (Stanley Milgram, 1963). Um homem de jaleco mandava o participante dar choques cada vez mais fortes em outra pessoa (os choques eram falsos, o "aluno" era ator). 65% foram até o fim da escala, 450 volts, mesmo ouvindo gritos. Não eram monstros. Eram gente comum obedecendo a quem parecia ter autoridade.2
A crença que não cede (Leon Festinger, 1956 e 1957). Festinger se infiltrou num grupo que esperava o fim do mundo numa data marcada. A data passou e nada aconteceu. Em vez de abandonar a crença, o grupo passou a defendê-la com mais força. Ele chamou isso de dissonância cognitiva: quando o fato contraria o que a pessoa acredita, é mais barato mudar o fato do que mudar a crença.3
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Alemanha, 1933: eles avisaram
Hitler publicou o que pensava em 1925, num livro. Ninguém foi enganado sobre o essencial. Em julho de 1932, o partido nazista teve 37% dos votos, a maior bancada do Parlamento. Em março de 1933, já com Hitler no poder, chegou a 44%.4
O psicólogo Erich Fromm, alemão que fugiu do nazismo, passou anos tentando entender o que tinha visto. Em O medo à liberdade (1941), ele explica: ser livre exige escolher e assumir a responsabilidade pela escolha, e isso dá angústia. Em tempo de crise, desemprego e humilhação, muita gente prefere entregar essa liberdade a alguém forte que diga o que fazer, mesmo que isso custe a própria liberdade.5
O que eu achoO que me assusta não é que ele tenha mentido. É que ele disse e muita gente achou que era exagero, ou que o alvo seria sempre o outro.
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Homens comuns
O historiador Christopher Browning estudou o Batalhão 101 da Polícia da Reserva alemã: cerca de 500 homens de meia-idade, pais de família, trabalhadores de Hamburgo, a maioria sem filiação ao partido. Em 1942, antes do primeiro massacre de que participaram, o comandante ofereceu que quem não quisesse participar podia sair. Só uma dúzia saiu.6
Pelos depoimentos que eles deram depois da guerra, o motivo principal para ficar não foi o ódio. Foi não querer parecer fraco diante dos colegas e não querer deixar o "trabalho sujo" para os outros. A pressão do grupo pesou mais do que a consciência.
A filósofa Hannah Arendt chegou a uma conclusão parecida ao assistir ao julgamento de Adolf Eichmann, em 1961. Ela chamou de banalidade do mal: o mal enorme feito por gente que não pensa no que faz, só cumpre o que o grupo e o chefe esperam.7
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Brasil, 1964: a marcha e o arrependimento
Em 19 de março de 1964, a Marcha da Família com Deus pela Liberdade levou uma multidão às ruas de São Paulo, pedindo a saída do presidente João Goulart. Doze dias depois veio o golpe. Muita gente que marchou achava que os militares arrumariam a casa e devolveriam o poder em pouco tempo.8
A ditadura durou 21 anos. Vários civis que apoiaram o golpe foram depois atingidos por ele. O caso mais conhecido é Carlos Lacerda, governador da Guanabara e um dos maiores defensores de 1964: teve os direitos políticos cassados em 1968 e foi preso naquele ano.9
O que eu achoA marcha se dizia "pela liberdade". A liberdade foi a primeira coisa que se perdeu, inclusive a de quem marchou.
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Ruanda, 1994: o rádio que empurrou a manada
Durante o genocídio de Ruanda, a rádio RTLM chamava os tutsis de "baratas" e incentivava a matança. O economista David Yanagizawa-Drott comparou aldeias que pegavam bem o sinal da rádio com aldeias que não pegavam, por causa dos morros. Onde o sinal chegava, houve mais violência. Pela estimativa dele, cerca de 10% da participação na violência pode ser atribuída à rádio. E o efeito se espalhava: quando uma aldeia era empurrada, as vizinhas iam junto.10
É o efeito manada medido em números: uma voz repetida todos os dias, num meio que todo mundo ouve, muda o que as pessoas acham normal fazer.
O que eu achoEm 1994 era o rádio. Hoje é o grupo de WhatsApp e o vídeo curto, que chegam a todo morro.
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Por que ninguém fala, até que todos falam
A cientista política alemã Elisabeth Noelle-Neumann chamou de espiral do silêncio: quem acha que está em minoria se cala, com medo de ficar isolado. Com o silêncio, a minoria parece ainda menor, e mais gente se cala.11
O economista Timur Kuran mostrou o outro lado: a falsificação de preferências. Muita gente diz em público o que não pensa em privado. Por isso regimes que pareciam ter apoio total caíram de repente, como no Leste Europeu em 1989. Bastou alguns falarem para que milhões descobrissem que não estavam sozinhos.12
E o psicólogo Albert Bandura explicou o desengajamento moral: as desculpas que a gente usa para continuar fazendo o que sabe que é errado. "É por uma causa maior", "o outro lado é pior", "todo mundo faz", "eu só obedeci".13
O que eu vejoConheço gente que, na conversa a dois, admite que está errada e fica abatida. No grupo, defende de novo. É Kuran e Noelle-Neumann acontecendo na minha frente.
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O que esses estudos ensinam
Uma voz muda tudo. No experimento de Asch, quando só um ator do grupo dava a resposta certa, a conformidade caiu muito.1 Quem discorda em voz alta dá coragem para os outros.
Quem segue não se vê como alvo. O discurso cruel sempre aponta para "eles". Quando a perda chega em casa, quase ninguém liga uma coisa à outra.
A dor por baixo é real. Medo, humilhação e conta que não fecha. O líder dá nome à dor e aponta um culpado. Quem se sente visto pela primeira vez perdoa muita coisa.
Mudar de ideia custa caro. Quando o voto vira identidade, admitir o erro parece trair a família, a igreja, a turma. Fato sozinho raramente convence. Quem traz a pessoa de volta é alguém de confiança que continua conversando com ela.
Esses momentos passam. A história também mostra isso: muita gente que apoiou depois se arrependeu. O que muda é quanto custou até lá.
Para ser honestoDo outro lado tem muita gente fazendo a mesma pergunta sobre o meu lado. Nem todo mundo que vota diferente foi enganado. Esses estudos valem para todos nós, inclusive para mim. Por isso a regra da casa: fato com fonte, e conversa em vez de humilhação.
Referências
ASCH, Solomon. Effects of group pressure upon the modification and distortion of judgments. In: GUETZKOW, H. (org.). Groups, leadership and men. Pittsburgh: Carnegie Press, 1951. Ver também: Studies of independence and conformity. Psychological Monographs, v. 70, n. 9, 1956. doi:10.1037/h0093718
MILGRAM, Stanley. Behavioral study of obedience. Journal of Abnormal and Social Psychology, v. 67, n. 4, p. 371-378, 1963. doi:10.1037/h0040525
FESTINGER, Leon; RIECKEN, Henry; SCHACHTER, Stanley. When prophecy fails. Minneapolis: University of Minnesota Press, 1956. FESTINGER, Leon. A theory of cognitive dissonance. Stanford: Stanford University Press, 1957.
YANAGIZAWA-DROTT, David. Propaganda and conflict: evidence from the Rwandan genocide. The Quarterly Journal of Economics, v. 129, n. 4, p. 1947-1994, 2014. doi:10.1093/qje/qju020
NOELLE-NEUMANN, Elisabeth. The spiral of silence: a theory of public opinion. Journal of Communication, v. 24, n. 2, p. 43-51, 1974. doi:10.1111/j.1460-2466.1974.tb00367.x
KURAN, Timur. Private truths, public lies: the social consequences of preference falsification. Cambridge: Harvard University Press, 1995.
BANDURA, Albert. Moral disengagement in the perpetration of inhumanities. Personality and Social Psychology Review, v. 3, n. 3, p. 193-209, 1999. doi:10.1207/s15327957pspr0303_3
As referências estão numeradas no fim do texto. Os números de cada experimento são os publicados pelos próprios autores.