Sete frentes em outubro de 2026: Irã, Rússia e Ucrânia, China, África, o levante dos jovens, Argentina e Gaza.
Por Ronaldo Silva · 17 de outubro de 2026 · 10 min de leitura
Olhar só para o Brasil não basta. O preço da gasolina, o emprego e até o tom da nossa eleição são mexidos por coisas que acontecem a milhares de quilômetros daqui. Estas são as sete frentes que eu acompanho. Em cada uma, o que se sabe vem com a fonte, e o que eu acho vem separado.
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Irã: a guerra que fechou o petróleo
O que se sabe
Em 28 de fevereiro de 2026, EUA e Israel atacaram o Irã. Houve cessar-fogo em 7 de abril e um acordo em junho para reabrir o Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de um quinto do petróleo do mundo. Em julho os combates voltaram. (Congresso dos EUA, CRS · Britannica)
Os EUA bloqueiam os portos iranianos. Em meados de outubro, o comando do exército do Irã disse que o estreito segue fechado até que os "direitos" do país sejam respeitados. (HNGN, 16/10)
Trump ameaçou novos ataques depois das eleições americanas de novembro. (CBS News)
O que eu achoGuerra lá é gasolina, frete e comida mais caros aqui. E, como escrevi em Cortina de fumaça, essa guerra começou bem na hora em que o caso Epstein apertava.
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Rússia e Ucrânia: o impasse
O que se sabe
Em 10 de outubro, Putin disse a Trump por telefone que é improvável retomar as conversas de paz logo, por causa dos ataques de drones ucranianos a Moscou. (Al Jazeera)
A Rússia aumentou os ataques a Kiev e outras cidades. O secretário de Estado americano, Marco Rubio, chamou a situação de "impasse perigoso". (CNBC)
Um acordo de energia entre EUA e Rússia, anunciado em outubro, foi duramente criticado por Zelensky. (The Hill)
O que eu achoQuando a paz vira negócio de petróleo entre os grandes, quem morre na trincheira não está sentado à mesa.
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China: se preparando
O que se sabe
O relatório do Pentágono de dezembro de 2025 diz que a China segue rumo à meta de ter, até 2027, capacidade de "vitória decisiva" sobre Taiwan. Os exercícios militares de dezembro incluíram, pela primeira vez, as ilhas próximas de Kinmen e Matsu. (Pentágono, relatório anual)
Já a inteligência americana (ODNI), em março de 2026, avaliou que a China não planeja invadir Taiwan em 2027. As duas avaliações se contradizem. (USNI News)
O que eu achoA China joga de longe e com paciência. A China é o maior comprador do que o Brasil exporta, e o Brasil não pode escolher lado como torcida.
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África: golpes que se dizem revolução
O que se sabe
Desde 2020, a África teve 10 golpes bem-sucedidos em 8 países, a maioria no Sahel (Mali, Burkina Faso, Níger), que hoje formam a Aliança dos Estados do Sahel, afastada da França. (The Conversation)
Em Madagascar, semanas de protestos da juventude derrubaram o presidente em outubro de 2025, e os militares assumiram. Um ano depois, a Anistia Internacional e os próprios jovens dizem que quase nada mudou. (Anistia Internacional · allAfrica)
No Mali, uma ofensiva de grupos armados em abril de 2026 pôs à prova a promessa de segurança da junta militar. (Just Security)
O que eu achoA raiva contra o colonizador antigo é justa. Mas farda no poder não é revolução, é troca de dono. O jovem de Madagascar foi para a rua e quem ficou com a cadeira foi o coronel.
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O levante dos jovens
O que se sabe
No Nepal, em setembro de 2025, protestos de jovens contra a proibição de redes sociais e a corrupção derrubaram o governo. Depois, o país elegeu o primeiro-ministro mais jovem da sua história. (Protestos no Nepal · European Democracy Hub)
Na Índia, em 2026, a pressão dos estudantes por mudanças na educação levou à renúncia do ministro da Educação. (European Democracy Hub)
De Marrocos ao Peru, da Indonésia à Europa, as queixas se repetem: corrupção, custo de vida, moradia e escola caindo aos pedaços. Os resultados variam: no Marrocos, os protestos não alcançaram o principal que pediam. (Context/Thomson Reuters Foundation)
O que eu achoO jovem está gritando a mesma coisa em vinte línguas: não quer herdar um mundo quebrado. O risco é a raiva sem rumo virar escada para outro autoritário. Por isso a conversa importa tanto quanto a rua.
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Argentina: a conta chegou
O que se sabe
Com Milei, a pobreza caiu até 28,2% no fim de 2025, o menor nível desde 2018. No primeiro semestre de 2026 voltou a subir: 32,3% da população, segundo o instituto oficial (Indec). A indigência foi de 6,3% para 7,5%. (IstoÉ · Chequeado)
Quase metade dos pobres (44,5%) são crianças e adolescentes de até 14 anos. (IstoÉ)
Em fevereiro de 2026, o Senado aprovou a reforma trabalhista: jornada de até 12 horas por dia e banco de horas no lugar da hora extra. (Conjur)
O que eu achoPara ser justo: a inflação e a pobreza caíram no começo. Mas a motosserra cortou primeiro de quem tinha menos, e agora a conta voltou com juros, no prato das crianças. É o laboratório que muita gente quer trazer para cá.
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Israel e Gaza: o crime que não se repete
O que se sabe
Em setembro de 2025, a Comissão Internacional Independente de Inquérito da ONU concluiu que Israel comete genocídio em Gaza. Em junho de 2026, um novo relatório reafirmou a conclusão e apontou o ataque deliberado a crianças. (ONU News)
O número de mortos registrado passa de 70 mil palestinos. Mesmo depois do cessar-fogo de outubro de 2025, mais de 1.200 foram mortos até julho de 2026, segundo especialistas da ONU. (ONU, Direitos Humanos)
A África do Sul processa Israel por genocídio na Corte Internacional de Justiça. O caso não foi julgado no mérito. Israel rejeita a acusação de genocídio e diz que age em legítima defesa contra o Hamas, que matou cerca de 1.200 pessoas em Israel em 7 de outubro de 2023. (Human Rights Watch, relatório 2026)
O que eu achoA palavra genocídio foi criada depois do Holocausto, para que nunca mais um povo fosse exterminado. Dói ver o governo de um país nascido dessa dor fazer em Gaza o que a ONU chama pelo mesmo nome. O 7 de outubro foi um crime, e nada justifica matar crianças às dezenas de milhares. Minha crítica é ao governo de Israel. Não é aos judeus, que sofreram o pior crime do século 20 e têm o meu respeito.
O fio que liga tudo
Petróleo, armas, fome e medo. Em quase todas essas frentes, quem paga é quem não decidiu nada: o soldado, a criança, o jovem sem emprego. E em quase todas, um líder forte promete resolver tudo, como explico no estudo Por que a gente segue quem fala coisas horríveis.
Situação conferida em 17 de outubro de 2026. Guerras mudam rápido: o que vale é a data de cada fonte.